Youtube ganha “personalidade de mídia” em Cannes
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30 de Julho de 2012 • 08:02
Nos últimos dias, diversas notícias sobre mudanças em jornais brasileiros e internacionais nos levam a crer que esse meio — tão bombardeado pelos impactos das mudanças do mundo digital em relação a seus modelos de negócios — tem procurado reagir como pode a esse processo. Primeiro foi o anúncio da volta da família Mesquita ao comando do Grupo Estado, após nove anos de gestão profissionalizada, com a nomeação de Francisco Mesquita Neto como presidente executivo da companhia a partir desta semana, em substituição a Silvio Genesini, diretor presidente há três anos.
No domingo passado, 29, ao completar 87 anos, o jornal O Globo estreou um novo projeto gráfico e editorial que tem como premissas a valorização da versão impressa e uma redação completamente integrada. No final da semana passada, o New York Times apresentou uma mudança histórica na correlação de forças entre suas fontes de receita: pelo segundo semestre consecutivo e com margem maior, o faturamento obtido com assinatura superou o conseguido com publicidade.
Em entrevista ao editor de mídia, Rodrigo Manzano, o presidente do Conselho de Administração do Grupo Estado, Plínio Villares Musetti, foi enfático ao afirmar os planos e as metas com a troca de comando da empresa: “A ênfase é na construção de um modelo de negócio sustentável, integrando papel e digital nos seus vários formatos e dispositivos de consumo de mídia. O jornalismo de qualidade e a força da marca vão migrar para esses novos dispositivos, em um modelo de negócio progressivamente sustentado pelo usuário final (conteúdo pago) e menos dependente da publicidade.”
As realidades brasileira e norte-americana no setor de jornais são bastante diferentes. Nos Estados Unidos, historicamente, a circulação era praticamente subsidiada pela publicidade. Com as mudanças de hábitos de consumo de mídia, houve um duplo impacto desse fenômeno, na circulação e na receita comercial. Por isso, o modelo do NYT é tão desruptivo, pois quebra esse ciclo.
No Brasil, no entanto, o momento do mercado é bem distinto. Desde 2010, a circulação dos jornais chamados quality papers tem aumentado, pouco, mas com uma média de 2%, enquanto a dos populares, desde que surgiram no mercado, há mais de uma década, crescem a passos bem mais largos. Apenas em 2011, foi registrado um acréscimo de 10,3% na circulação desse segmento. Com relação à publicidade, o meio jornal é o que teve o maior impacto de perda de receita. Se em 2011 obteve um share de 11,8% do bolo publicitário, essa participação era de 21,2%, em 2001, de acordo com o Projeto Inter-Meios.
Quando o NYT e outros jornais internacionais passam a adotar o modelo do paywall, o que está em jogo é a oferta de conteúdo de qualidade. E entenda-se aí altíssima qualidade, o que implica investimento em talentos, pesquisa, articulistas, rede de correspondentes, enfim, tudo o que for possível para se diferenciar do que não pode ser encontrado de graça na rede. Essa é a conta que tem de bater e, se está havendo uma transferência desse pagamento dos anunciantes para o consumidor final, o bom e velho leitor, ele encontra-se no auge de seu exercício de poder e de escolha. É isso que diferencia um vendedor de papel (ou de bytes) de um vendedor de conteúdo.
Os jornais brasileiros ao utilizar o mesmo modelo — a exemplo da Folha de S.Paulo, que inaugurou esse formato há pouco tempo —, e que parece também o caminho a ser seguido por Estadão e O Globo, têm como desafio exatamente entregar esse tipo de conteúdo. No entanto, a maior fonte de receita, pelo menos aqui no Brasil, ainda deve continuar vindo, por um bom período, da edição impressa. Por isso que iniciativas como a de O Globo — de valorizar exatamente o papel — são mais do que bem-vindas. É preciso tomar cuidado ao simplesmente importar modelos que funcionam em outras realidades sem explorar todas as possibilidades de abordagem do mercado local.
N.E: Até dezembro, estarei em licença maternidade, me dedicando aos cuidados da pequena Candy que chega nos próximos dias. Durante a minha ausência, a redação de Meio & Mensagem estará sob o comando da editora executiva Lena Castellón.