Em Pauta - Acontece
Manifesto contra redução de pena na mídia
Filhas de Luiza Jatobá, morta pelo 'atirador do shopping' voltam à mídia contra redução de pena do assassino
Um novo manifesto contra a violência (depois do criado por Nizan Guanaes nesta semana, leia aqui) entra em mídia. Desta vez, Karina, Carol e Hanna, filhas de Luiza Jatobá - na época RTV da Neogama - que foi assassinada em 1999, assinam uma peça que avisa a população da decisão dos desembargadores do Tribunal de Justiça, que reduziram a pena do ’atirador do shopping’ Mateus da Costa Meira.
O ex-estudante de Medicina invadiu uma das salas de cinema do MorumbiShopping e metralhou a platéia, matando três pessoas e ferindo outras quatro. Com a decisão de Bittencourt Rodrigues, Hélio de Freitas e Barbosa de Almeida, a pena do assassino cai de 120 para 48 anos. E, em janeiro de 2008, quando completa 1/6 da pena, Meira poderá entrar em regime semi-aberto, voltando às ruas.
Karina hoje trabalha no mesmo departamento em que sua mãe atuava. Já Carol Jatobá trabalha na área de eventos e Hanna ainda é estudante e trabalha como assistente de fotografia. Leia abaixo o manifesto das três, na íntegra:
"Estão tentando diminuir a pena do matador do shopping.
Os assassinos do menininho no Rio devem ser a favor.
No fim de janeiro, os desembargadores Bittencourt Rodrigues, Hélio de Freitas e Barbosa de Almeida votaram pela diminuição da pena do matador do Morumbi Shopping, Mateus da Costa Meira, de 120 anos para 48, apenas pouco mais de um terço.
A "lógica" do raciocínio diz que, mesmo tendo metralhado o cinema inteiro, apontado para várias pessoas individualmente e matando 3 delas, os desembargadores consideraram que os crimes cometidos resultavam de uma única conduta.
É importante revelar aqui que, cumprindo só um sexto dessa pena, a "lei" proporciona ao criminoso o direito de solicitar regime de prisão semi-aberto. No caso do matador do shopping, isso significa cumprir apenas 8 anos e ficar solto. Considerando que este ano ele completará "coincidentemente" 8 anos de prisão, há grande possibilidade de o matador voltar às ruas - e aos shoppings- livre, leve e solto ainda em 2007.
Agora pense um pouco: como alguém que cometeu um dos crimes mais hediondos que se tem notícia neste país pode estar a um passo de -apenas 8 anos depois - estar em liberdade?
Este caso e o do menininho arrastado por bandidos no Rio são dois lados da mesma moeda: a violência endêmica e hedionda que se instalou no país. Enquanto isso você, que como nós, paga imposto, vive uma condição de "solidão de cidadania", porque aqueles que comandam o país e controlam as leis nos deixaram sós, à mercê da realidade.
E a realidade é que o tempo correu e as leis formuladas muitos anos atrás não cumprem mais sua função, porque estão defasadas em relação ao panorama social atual. A lei e sua legislatura anacrônica nos forçam todo dia a encarar a realidade contemporânea como se fosse possível lutar uma Guerra do século 21 com armaduras e espadas do século 15.
Aos pais do menininho do Rio estendemos nossa solidariedade e sentimentos. E chamamos a atenção deles e de todos para um coincidência triste: um dos assassinos de seu filhinho estava em regime semi-aberto. O mesmo regime que poderá ser solicitado pelo matador do shopping se sua pena for reduzida.
Será que não percebem? Não existe fato isolado. Não existe "cada caso é um caso". Um fato leva a outro e cada caso gera um novo. É a lei da ação e reação, que sempre é mais real que a anacrônica lei dos homens brasileiros.
Enquanto isso, as pessoas ainda não atingidas pelo hediondo em suas vidas se perguntam: "O que está acontecendo nesse país?" Nada que não esteja acontecendo há muito tempo sem que nada esteja sendo feito por quem se pergunta "o que está acontecendo nesse país?".
E não estamos falando de protesto ou indignação, passeatas emocionais e atos simbólicos. Isso tudo é tocante, mas só traz a quem participa a sensação falsamente apaziguadora de que se fez alguma coisa, mesmo que só para as câmeras.
A única coisa a ser feita é agir coordenadamente pressionando presidente, governador, prefeito e poder judiciário para que façam o que pagamos como cidadãos para ser feito.
Está na hora de crescer como povo e pegar o destino na mão. Senão, vamos morrer assassinados ainda na tenra infância da nossa cidadania.
Karina, Carol e Hanna,
Filhas de Luiza Jatobá - cidadã assassinada pelo matador do shopping."







Comentários
Segunda-feira - 19/02/2007 | h04:51 Jane Soares
Concordo, e considero importante não deixar esfriar o assunto, já que nos debates estão se falando que a população está emocionalmente abalada, e se formos esperar uma volta a calma, quantos assassinatos ainda teremos? Precisamos de reformas urgentes em nosso Código Penal e moralizar a justiça. Um plebicito seria a prova da vontade do povo.
Sexta-feira - 16/02/2007 | h07:44 EDUARDO LOBATO SALLES
Eu quero externar aqui o meu apoio à toda a família, me solidarizando e colocando à disposição...
Sexta-feira - 16/02/2007 | h12:06 jorge carrero
Sinceramente, não sei onde essa onda de impunidade irá parar. O judiciário brasileiro é o guardião da impunidade; os parlamentares brasileiros não tem mais moral e credibilidade para conduzir os anseios do povo; a pollícia é fraca, corrompida e ultrapassada... Aonde iremos ?
Sexta-feira - 16/02/2007 | h10:53 Anne Caroline B. Lima
É um absurdo! Temos que protestar contra isso!
Sexta-feira - 16/02/2007 | h10:39 João Raupp
Quando analisamos a evolução ciêntifica que a humanidade teve nas ultimas décadas, imaginavamos que a evolução espiritual, ocorre-se na mesma proporção, mas o que vemos é justamente o oposto.... Lamentável.
Sexta-feira - 16/02/2007 | h10:35 Heloísa Minto
Concordo plenamente com tudo o que as meninas escreveram. É um absurdo permitirmos tal ocorrência. Alguma coisa ter que ser feita. Parabéns pela coragem e por colocar em prática este poder que todos nós temos, e que infelizmente guardamos para agir quando do nosso momento hediondo. Quanto a confundir psicopata com marginais, não sei qual dor dói mais, será que é possível medir?? A ação cometida por um marginal deve ser punida atras das grades e a de um "psicopata" num sanatório...
Sexta-feira - 16/02/2007 | h10:28 Aline Chaves Agra
Porém a impunidade é a mesma, mesmo os casos sendo distintos.
Sexta-feira - 16/02/2007 | h09:10 Fábio Zanetti
Não confudam a ação de psicopata com a atitude de marginais. É um erro.