Em Pauta - Mídia

Web força jornais a rever modelos digitais

Grandes jornais brasileiros entram no debate sobre a cobrança ou gratuidade do acesso aos seus conteúdos na internet

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Por Jonas Furtado
20 de Abril de 2009 às 11:09

Uma adaptação capitalista para a mais filosófica dúvida da dramaturgia universal assola donos de jornais do mundo todo. Cobrar ou não cobrar pelo acesso ao conteúdo de suas versões digitais é a questão que insiste em não calar para grandes grupos de mídia impressa. No epicentro do debate está a imprensa norte-americana, cujos prejuízos vêm se intensificando com o agravamento da crise econômica. Grandes companhias, como a Time Inc. e o New York Times Co., estudam formas de serem remuneradas pelo acesso a seus conteúdos na web. Paralelamente, a Associated Press tem disparado verbalmente contra os agregadores e buscadores de notícia, a quem acusa de obter lucros à custa da apropriação indevida de conteúdo produzido pelas empresas jornalísticas.

No Brasil, a discussão também já foi estabelecida, mas em temperaturas mais amenas ? ao menos por enquanto. Desde o final da década de 90 sobressaía a tendência, entre os jornais, de apostar no livre acesso ao conteúdo digital para incrementar a audiência online, gerando interesse dos anunciantes e ótimas receitas publicitárias. "Como a publicidade no meio internet não está consolidada, está acontecendo uma correção de rumo. A grande maioria das empresas de agora entende que é importante cobrar pelo conteúdo", diz Ricardo Pedreira, diretor executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ).

O Grupo Estado, que publica o Estado de S. Paulo, já experimentou praticamente todos os modelos, e hoje adota um sistema misto ? há notícias exclusivas para assinantes, enquanto parte do conteúdo é de acesso livre. O diretor de conteúdo do grupo, Ricardo Gandour, acredita que o advento dos buscadores e agregadores de notícias subverteu o modelo idealizado anteriormente. "O agregador mudou essa dinâmica. Hoje, há terceiros pegando conteúdo alheio e montando um negócio próprio. Mas não se pode ignorar que esse conteúdo teve um custo para ser produzido", diz.

Gandour defende que os meios geradores de informação estudem urgentemente um modelo de negócio pago para a plataforma digital, como condição essencial para a existência do jornalismo de qualidade. "Eu vejo a sociedade valorizando a informação com credibilidade, assim como assinam uma TV a cabo e pagam até por assinatura de água hoje em dia. O consumidor paga por conveniência e confiabilidade", compara. "Mudar esse cenário atual é um desafio importante porque, no fundo, estamos falando de perpetuar marcas. E marcas se perpetuam com a sociedade reconhecendo o valor do serviço oferecido."

Para o superintendente do Grupo Folha, Antonio Manuel Teixeira Mendes, o modelo online vigente corre risco de um "travamento" caso os provedores de conteúdo não sejam acomodados em um sistema economicamente viável também para eles. "Há muitos players ganhando dinheiro no universo digital, como as empresas de telecom, tecnologia e plataformas", afirma. "Mas as pessoas acessam a internet motivadas pelo que aparece na tela, e não pelo que está por trás dela. Portanto, o que aparece na tela tem de estar monetizado e ser devidamente remunerado."

Enquanto boa parte do conteúdo da Folha Online tem acesso livre, as versões digitais das edições impressas da Folha de S. Paulo são exclusivas para assinantes do jornal ou do provedor UOL. Esse modelo é o mais interessante para os provedores de acesso, segundo Guilherme Ribenboim, presidente do Internet Advertising Bureau Brasil, entidade que regulamenta o uso dos meios interativos de comunicação e marketing no País. "Cria um conteúdo premium, fechado para assinantes, que agrega valor ao negócio dos provedores. É um diferencial para conquistar assinaturas", justifica. Ele não acredita, porém, em sistemas de cobranças como o micropagamento, inspirado no comércio de músicas online. O modelo, pelo qual o usuário pagaria determinada quantia por notícia lida, é um dos mais aventados nos debates do assunto. "Pela minha experiência com internet, não vejo o mesmo modelo funcionando com notícias. São coisas muito diferentes. Uma música é por definição um arquivo."

Cultura estabelecida
A opinião de Ribenboim é compartilhada por Marcelo Rech, diretor de produto do Grupo RBS, que publica o Zero Hora e mais sete jornais nos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. "Acho pouco provável que um sistema de micropagamento funcione. Meu feeling é que as pessoas não estão dispostas a pagar por nada na internet. É uma cultura que se estabeleceu", analisa. A exceção que faria o internauta mexer no bolso, para Rech, seria o acesso a um conteúdo muito diferenciado. Essa é a fórmula do The Wall Street Journal, que por muito tempo foi voz destoante no meio ao cobrar pela leitura de suas notícias quando a tendência apontava para o acesso gratuito.

Atualmente, o conteúdo dos jornais do Grupo RBS é oferecido integralmente e com acesso livre na web, mas diferentes modelos vêm sendo discutidos. A aposta para o futuro segue o pensamento do presidente da empresa, Nelson Sirotsky, para quem a informação será gratuita, e o jornalismo, pago. Rech explica. "A informação hoje é uma commodity. Todo mundo tem ao mesmo tempo. Se ofereço no jornal a mesma notícia 24 horas depois de ver as fotos nos sites e as imagens na televisão, estou desvalorizando meu produto. Alguns jornais ainda acham que estão em 1970", critica. "O modelo de jornal impresso com que trabalhamos é cada vez mais interpretativo, analítico, com visões exclusivas e antecipando o que será relevante nos próximos dias. Isso poderá ser cobrado, até mesmo na internet", completa.

AP VS Google
O debate "conteúdo pago versus conteúdo grátis" esquentou de vez nos últimos dias, quando o presidente do conselho da agência de notícias Associated Press, Dean Singleton, elevou o tom de suas declarações contra os agregadores de notícias, como o Google News. Por meio de um release, a AP informou que irá ampliar a proteção ao conteúdo produzido por seus jornais associados, limitando e fiscalizando o seu uso em páginas online não autorizadas. "Não podemos mais ficar parados assistindo a terceiros se apropriarem do nosso trabalho sob pretextos legais equivocados", disse Singleton no encontro anual da entidade. O Google emitiu comunicado refutando ser o alvo direto da declaração, "uma vez que dispõe dos artigos por meio de uma parceria acertada com a AP", e esclarecendo que uma simples solicitação basta para os jornais não terem seus textos publicados no Google News.

No Brasil, com exceção da Folha de S. Paulo, os grandes jornais permitem que o Google Notícias agregue seus conteúdos. Para Ricardo Vezo, diretor de negócios da unidade O Globo, da Infoglobo, é preciso analisar o caso sobre diferentes prismas. "Se, por um lado, o Google captura parte importante da receita publicitária dos sites produtores de conteúdo, por outro, responde por parcela considerável do tráfego gerado para estes através de suas ferramentas de buscas", pondera. "Nós optamos pelo caminho da parceria", conclui. O acesso às notícias do site de O Globo é gratuito, mas a versão em PDF da edição impressa do dia é restrita para assinantes.

Felix Ximenes, diretor de comunicação do Google no Brasil, diz que a discussão tomou um rumo equivocado: "Nós não competimos com os veículos; nós mandamos tráfego para eles". "Quanto à verba de publicidade, aí eu concordo que estamos competindo, mas não de forma tão direta. Também competimos com a Rede Globo, os outdoors, as faixas de rua." Ximenes afirma que a empresa quer participar do debate e entende que, por ser uma situação sem precedentes, são naturais tanto as divergências quanto o aparecimento de diferentes correntes de pensamento. "Estamos todos tentando entender e viabilizar um modelo."

Comentários
  • Quinta-feira - 23/04/2009 | h10:33 valmir miranda

    Ora, ora..a notícia mais detalhada apesar de ser fechada pelos portais de empresas jornalísticas não irá furar o bloqueio para aqueles que se tornam assinantes desses jornais e fazem a publicação em seus blogs, etc. A grande revolução para a monetização dos portais vai demorar um pouco, até que nós, leitores, façamos uma auto-exigência para a preferência do jornalismo de qualidade. Sem dúvida, vejo que o celular será um grande negócio para quem quer ganhar dinheiro com serviços (acesso, publicidade, assinatura) cobrado pelas empresas de telefonia através do acesso à internet mobile, para assim, repassar a verba aos portais.


  • Terça-feira - 21/04/2009 | h10:16 Lucas Diniz

    O post esta de parabéns. É um assunto que vive me fazendo rever conceitos e moldes, e agora muitas visões pra contribuir. De uma maneira bem resumida eu resumo no (já quase velho) jargão: O Google vai dominar o mundo. E isso não é uma extrema associação a empresa em si, mas sim ao conceito como eles geram receita, e que na minha opinião é o melhor parametro da atualidade.


  • Terça-feira - 21/04/2009 | h02:12 Ivan Moreira

    Concordo com o que alguns falaram acima. Acredito que o preço cobrado pelo jornalismo de qualidade é baixo. O valor real era pago pela publicidade, na época em que a maneira mais barata e eficiente das empresas alcançarem as pessoas era colocar suas mensagens ao lado do conteúdo distribuído pelas veículos impressos e digitais. A verba publicitária está se dispersando porque as empresas tem hoje outras maneiras de chegar ao consumidor. A cada dia o modelo antigo se torna menos eficiente para publicidade. Creio que a resposta não está em como distribuir seu conteúdo para atrair visualizações e assim gerar valor para anunciantes, mas está em como diferenciar o seu produto da informação gratuíta e vendê-lo pelo preço que vale. Talvez o objetivo dos anuciantes, que muitas vezes era o de atingir a todos, não seja o mesmo do grande jornalismo, que poderá focar em audiência específica e seleta.


  • Terça-feira - 21/04/2009 | h01:14 Tiago Luiz Freitas

    Internet é free!!! Não tentem mudar isso, pois a geração que vem depois de vocês tem outros valores e as coisas vão mudar mais ainda! Vamos viver de publicidade e ter oprações mais enxutas nas empresas. Se você for muito bom, crie o seu próprio canal de informação e venda-se! Essa é a nova cara do jornalismo do século XXI.


  • Terça-feira - 21/04/2009 | h11:13 Edson Lobo

    É uma discussão ótima por ser complexa. A internet chegou gratis, deram acesso gratis, depois vieram os provedores pagos, mas mantiveram acesso grátis, "roda-se" o mundo pela internet, será muito dificil colocar na cabeça das pessoas que as pessoas precisam pagar para ter acesso aos conteudos. Uma das fontes de renda de quem quiser permanecer na internet é a publicidade e deve ser trabalhada por cada um que quiser ter um site, blog, etc, deixando o acesso livre em parte e colocando o "conteudo restrito" a quem pagar, porém com material MUITO atrativo e inédito. Vamos ler outros comentários.


  • Terça-feira - 21/04/2009 | h11:07 Laercio Pavanelli

    "Assim caminha a humanidade" Umas áreas nascem outras morrem, outras permanecem e permanecerão sempre é o caso da publicidade. são coisas inerentes ao ser humano desde o chaveco da "cobra" vendendo a maça pra Eva, hoje o modelo é outro e notícias se tem até dormindo a própria imprensa vá via está situação a 10 anos, mas apostaram que não ia dar em nada. Se fosse o Gutemberg que tivesse criado a internet hoje a discussão seria outro. Esse papo de micropagamento,falência, perdi meu emprego, o quê vou fazer? a resposta está na lei Darwin. O resto é " gerar conteúdo" simples assim, ácido e cruel.


  • Terça-feira - 21/04/2009 | h10:22 Ana Paula Marques

    Para que não é do meio, parace ganância ou burrice. Mas para quem é jornalista ou administrador de uma empresa de mídia e está tendo que demitir ou foi demitido, como eu fui no início desse amo, pensar em cobrar por conteúdo on line pode ser a única saída.


  • Terça-feira - 21/04/2009 | h09:41 José Dias

    Na momento que cobrarem do usuário, acabam. O lucro tem que vir dos anuncios.


  • Terça-feira - 21/04/2009 | h08:39 Antonio Carlos Ferro

    Empurrem os leitores para o rádio e a tv. os donos desses jornais, passaram os limites da ganância e chegaram à burrice. a internet é democrática e gratuita e tem que continuar assim.


  • Terça-feira - 21/04/2009 | h07:42 Cássio Melo

    Uma sugestão, pode ser até ingênuo de minha parte, mas talvez, para ajudar os sites de conteúdo jornalístico a terem um rendimento maior, talvez um cadastro gratuito de leitores, onde só os cadastrados poderiam ler o conteúdo, porém, em contrapartida, esses seriam receptores de propaganda dos parceiros dos sites, recebendo newsletter dos anunciantes no email junto com as notícias.... uma condição Sine Qua Non para o acesso às mesmas...e aí, as receitas de propaganda poderiam aumentar para os sites..não é uma solução...mas pode ajudar...enfim, uma sugestão...risos...


  • Terça-feira - 21/04/2009 | h07:25 Cássio Melo

    Eu discordo que a cultura de não pagar pelo conteúdo da internet não pode ser mudada, mas também não acredito no micropagamento, pois muitas notícias terão manchetes(ainda mais) inclinadas a serem título publicitário para chamar leitores. Isso iria afetar o conteúdo, além de que notícias ainda sem atualizações, aquelas em tempo real, seriam talvez uma frustração, pois muitas vezes as manchetes são lançadas ainda sem muitas informações sobre os fatos e depois que vão sendo atualizadas..bom, não sei, sou publicitário, mas gosto muito do jornalismo e da velocidade de informação na internet e vejo que realmente isso precisa ser monetizado para que não se perca a qualidade do serviço e para que isso não continue como alvo de "novos negócios". Discussão boa.




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